Querido Diário Lunar,
Se um dia eu tiver a brilhante ideia de fazer um rolê de fim de ano envolvendo ônibus, bug, canoa, mala de 23 kg (mais emoção), e uma casa sem luz — me impeçam. Me amarrem. Me coloquem pra ver o preço do voo mais caro, porque, sinceramente, teria valido a pena.
Tudo começou quando a gente decidiu fechar o Ano Novo em Boipeba, na Bahia. A ideia era linda: natureza, paz, um fim de ano bem raiz. Mas aí surgiu um detalhe: muita gente que a gente conhecia ia pra Caraíva também. E, como boas viajantes indecisas que somos, pensamos: por que não fazer os dois? Afinal, é tudo “ali perto” — palavras que hoje me dão calafrios.
O problema: o voo entre Salvador e Porto Seguro estava a preço de ouro. A solução brilhante? Ônibus. “Doze horinhas só, tranquilo, a gente vai dormindo e quando ver já chegou.”
Ilusão.
Chegamos na rodoviária de Salvador animadas, mochileiras as meninas. O ônibus era bonito, a nossa poltrona era basicamente uma cama. Me sentei ao lado da Bárbara. Tudo ia dar certo.
Bárbara dormiu em 3 minutos. Eu? Não.
Estava elétrica, sociável, cheia de assunto. E sem ninguém pra conversar. Passei duas horas olhando pro nada, depois mais umas tantas horas acordando no meio da madrugada sem fazer a menor ideia de onde estava. Toda vez que eu olhava o mapinha: “Você está no meio da Bahia.” Parecia eterno o caminho.
E aí veio o banheiro. Gente. O banheiro. Ele tinha uma porta que não fechava, precisava de força bruta pra travar. Resultado: acordamos meu irmão, que estava em outro banco, pra ajudar a fechar. Vinte minutos depois, muita risada nervosa, acordando metade do ônibus, conseguimos. E seguimos sem usar mais o banheiro.
Doze horas depois (que pareciam trinta), chegamos em Porto Seguro. E aí, finalmente, né?
Não.
De Porto Seguro até Caraíva, mais duas horas de carro. Estávamos em quatro, ou seja: três espremidas atrás, trocando suor. Chegamos? Ainda não. Agora era a hora da canoa. Sim, canoa. Uma pequena travessia linda, se você não estiver há 15 horas sem dormir e carregando uma mala que pesa mais que um adulto.
Caraíva é feita de areia. Isso significa que rodinhas de mala não servem de nada. Só quem carrega é o amor, ou, no meu caso, meu irmão (pra isso que serve homem, né?).
Aí, bug. Sim, bug. De novo. Para chegar na casa que alugamos.
E, quando a gente achou que tinha acabado, descobrimos que a casa estava sem luz.
Não só isso: sem água.
E mais: cheia de barata, com banheiro quebrado e restos de quatro homens que tinham alugado antes da gente. Um verdadeiro cenário pós-apocalíptico bem desagradável.
Mas enfim… vieram limpar. A luz? Voltou eventualmente. Mas, detalhe importante: só nossa rua estava sem luz. A galera toda de banho tomado, cheirosa, bonita e nós? Imundos.
Caraíva, porém, é linda. Território indígena, céu estrelado, comida de rua que dá vontade de chorar de felicidade. A gente sobreviveu. Dançamos, comemos, nadamos, vivemos.
E a volta? Mais bug, mais canoa, mais carro. Mas, dessa vez, aprendemos a lição e compramos o quê? Um voo direto Porto Seguro – São Paulo. Nunca saboreei tanto um assento do meio na minha vida.
Moral da história?
Vá pra Caraíva. Mas vá de avião.
E leve: boa vontade, paciência e um irmão forte.
O resto é mágico.








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